sexta-feira, 29 de abril de 2016

30 de Abril Santa Catarina de Siena

"Quem possui o amor de Deus, nele encontra tanta alegria que cada amargura se transforma em doçura e cada grande peso se torna leve. E isto não nos
deve surpreender porque, vivendo na caridade, vive-se em Deus"
A pequena Catarina

Dotada de grande inteligência e beleza, nasceu Catarina em 1347, na cidade de Sena, numa época em que a Península Itálica, então dividida em numerosos Estados soberanos, passava por grandes conturbações, não só no campo político, mas também no religioso. Foi a penúltima dos 25 filhos do casal Benincasa, porém, com a morte de sua irmã mais nova, acabou assumindo a posição de caçula e filha predileta da família. Seu pai era um simples tintureiro, mas - homem hábil e enérgico, reto e de grande reputação nas redondezas - bem sucedido na sua profissão.


Essa menina privilegiada recebeu de seus pais e irmãos uma primorosa educação, mas uma reduzida instrução escolar, pois somente aos 30 anos aprendeu a ler e escrever, segundo consta, de maneira miraculosa. Desde os albores do uso da razão, gostava muito de rezar, de visitar igrejas e ouvir as histórias dos santos.
Desde criança, foi favorecida pelo Esposo das Virgens com dons místicos extraordinários. Por exemplo, com apenas 6 anos de idade, teve uma grandiosa visão de Jesus Cristo. Ela havia saído com seu irmão Estevão para visitar a irmã Boaventura, no outro lado da cidade. Na volta, passando pelo Valle Piatta, Catarina ergueu os olhos em direção à igreja de São Domingos e viu Jesus no ar, revestido de paramentos sacerdotais, sentado num trono sobre nuvens luminosas, acompanhado de São Pedro, São Paulo e São João Evangelista. O Senhor lhe sorriu afavelmente e a abençoou, traçando no ar três cruzes em sua direção, como fazem os bispos. Ela ficou imóvel, petrificada, contemplando a presença viva de Nosso Senhor. Seu irmão, que nada via, espantado com a imobilidade da menina, gritou-lhe assustado:
- Catarina, que fazes aí?! - Ela voltou os olhos para Estevão e, quando olhou de novo em direção à visão, esta já havia desaparecido. Chorando, queixou-se:
- Ah, se tivesses visto o que eu vi, não me terias chamado!

Decisão e firmeza desde a infância

Frei Raimundo de Cápua, confessor e primeiro biógrafo da santa, baseando-se nas recordações de Lapa de Benincasa, mãe de Catarina, conta-nos que esta tomou a resolução de não casar-se quando tinha apenas 7 ou 8 anos. Era claro que a Divina Providência tinha desígnios especiais em relação a essa filha eleita.
Mas a família tinha para ela outros planos... Sua própria mãe envidou todos os esforços para que ela também se casasse, no que contou com a ajuda de sua irmã Boaventura, recém-casada.
Esta, com quem Catarina foi morar, incentivou-a a se vestir e pentear-se elegantemente, para ostentar sua beleza e conseguir um bom noivo. No início, a jovem Catarina cedeu e, aos poucos, foi-se esmerando em sua apresentação pessoal. Todavia, Jesus queria o coração dessa virgem exclusivamente para Si, e enviou-lhe uma severa advertência, representada pela morte súbita de sua irmã Boaventura. Caindo em si, Catarina voltou para a casa dos pais, onde retomou a vida de penitência, que se habituara a levar quando menina.
Para vencer as pressões da mãe, que não desistira de seu intento, a heroica moça cortou sua bela cabeleira, em sinal de completo desapego e de rompimento com o mundo. Este fato provocou uma feroz reação da mãe, que, em represália, obrigou-a a fazer todo o serviço da casa, como uma servente, e tirou-lhe o quartinho onde ela costumava se recolher em oração e penitência.
Mas, como diz São Paulo, "todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus" (Rom 8, 28). A perda de sua "cela monacal" levou a jovem santa a construir para si a "cela do coração", a respeito da qual ela própria comentaria mais tarde, numa de suas inúmeras cartas: "Esta cela é uma moradia que o homem carrega consigo por toda parte. Nela adquirem-se as verdadeiras e reais virtudes, especialmente a humildade e a ardentíssima caridade" (Carta 37).
Vendo a fortaleza da filha, que não cedia em suas convicções e não perdia a alegria, o pai interveio a seu favor, devolvendo-lhe o pequeno quarto e permitindo-lhe receber o hábito de penitente da Ordem Terceira de São Domingos, o qual ela anelava com toda a sua alma.


Núpcias espirituais

Dos 17 aos 20 anos de idade, Catarina passou reclusa em sua cela, orando e jejuando, aprendendo os segredos de Deus e penetrando em suas maravilhas. Só saía para ir à Missa, quase não conversava com ninguém e se alimentava pouquíssimo. Aliás, ao longo de sua vida, passou dias e dias alimentando-se apenas da Sagrada Eucaristia. Sua crescente devoção à Santíssima Virgem ajudava-a a vencer as tremendas tentações com que o demônio a atormentava.
No ano de 1367, no dia da ceia de Carnaval, véspera da Quarta-Feira de Cinzas, Nosso Senhor apareceu à Santa no recôndito de sua cela, desposando-a em núpcias místicas. Após colocar-lhe como sinal um anel de ouro no dedo, ordenou-lhe que fosse juntar-se à família na ceia, pois queria fazer dela um apóstolo.

Do recolhimento ao apostolado e à luta

Começava para nossa Santa nova fase de sua curta vida. Iniciou seu apostolado socorrendo os pobres e enfermos. Não havia quem não a conhecesse em Sena. Também ninguém que viesse pedir-lhe auxílio e não fosse prontamente atendido.
Uma terrível peste avassalou o país em 1374 e Catarina, com generosidade heróica, dedicou-se como nunca a prestar assistência às vítimas do flagelo. Cuidou dos corpos enfermos, mas sobretudo tratou das almas, conseguindo conquistar muitas delas para o Céu. Curava doentes, convertia pecadores impenitentes pela força de sua oração e expulsava demônios com uma só palavra de sua boca.
Muito mais importante, porém, foi a atuação de Santa Catarina naquele conturbado mundo político de fins da Idade Média. Em torno dos Estados Pontifícios, agrupavam-se pequenos reinos, além de várias cidades que constituíam Estados soberanos. A todo momento nasciam novos conflitos, ou recrudesciam antigos. Sem falar nas "guerras privadas" de facções familiares dentro de uma mesma cidade. Muito pior, revoltas de muitas dessas cidades contra o Papa. Este defende-se, fulminando com sentença de interdito algumas delas. Novas revoltas, um verdadeiro caos!
Contando só com a força que seu Divino Esposo prometera que nunca lhe faltaria - e efetivamente nunca faltou! -, Santa Catarina foi chamada a intervir em numerosos desses conflitos. Viajando quase incessantemente de cidade em cidade, exerceu um importante papel de pacificadora. Como não podia deixar de ser, seu principal empenho tinha como meta a glória de Deus e a defesa do Papado e dos Estados Pontifícios.

Exílio de Avignon e Grande Cisma

Toda essa intensa atividade de Santa Catarina foi, sem dúvida, de grande benefício para a Igreja e a Cristandade. Mas não passa de um simples degrau para aquilo que constitui sua grande missão pública: a luta para trazer de volta a Roma a sede do Papado.
Forçado por injunções políticas ocasionais, o Papa Clemente V, ex-Arcebispo de Bordeaux, transferira em 1309 a Sé Pontifícia de Roma para a cidade francesa de Avignon. Em termos concretos, este fato submeteu os Sucessores de Pedro ao jogo das ambições e das corrupções de reis, príncipes e outros governantes terrenos e, infelizmente, mesmo de altas personalidades eclesiásticas indignas de seus cargos. Tudo isto com enormes prejuízos para o governo da Igreja e a salvação das almas.

Sem nunca exceder sua humilde condição de simples leiga de uma Ordem Terceira, Santa Catarina admoestava com ousadia e serenidade, "em nome de Cristo", os grandes deste mundo, não apenas autoridades temporais, mas inclusive os cardeais da Corte Pontifícia de Avignon. E concorreu poderosamente para que, afinal, no ano de 1377, o Papa então reinante, Gregório XI, decidisse enfrentar a oposição do Rei de França e reinstalar na Cidade Eterna o governo do mundo cristão.
Mas Gregório XI faleceu no ano seguinte, sendo sucedido por Urbano VI. Um grupo de Cardeais, sob pretextos falaciosos, se revoltou contra ele, voltou para Avignon, declarou nula a eleição do Papa legítimo e elegeu um antipapa, o qual tomou o nome de Clemente VII.
Nasceu assim o chamado Grande Cisma do Ocidente, durante o qual Santa Catarina foi a paladina e a coluna de sustentação do verdadeiro Papa, por ela cognominado de "o doce Cristo na Terra".
"O que é fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes" - afirma São Paulo (1 Cor 1, 27). A humilde filha do tintureiro Benincasa empreendeu inúmeras viagens para resolver complicadas questões; foi conselheira de reis, príncipes, bispos e até mesmo de Papas. Iluminada pelo Espírito Santo, fortalecida pela graça do Deus Crucificado, fez tudo quanto pôde para defender a unidade da Igreja que tanto amava, na pessoa do sucessor de Pedro.

Doutora da Igreja

Com apenas 33 anos, partiu para a eternidade a 29 de abril de 1380, deixando uma plêiade de discípulos, um exemplo de vida e uma obra escrita composta de 381 cartas, 26 orações e o livro "O diálogo", no qual descreve todo o seu método de apostolado e vida interior, chamado pela Igreja como "livro da doutrina divina".
Por seus ensinamentos cheios de verdade e sabedoria, foi honrada pelo Papa Paulo VI com o título de Doutora da Igreja, em outubro de 1970. "Suas cartas são como fagulhas de um fogo maravilhoso que brilha em seu coração, ardente do Amor infinito que é o Espírito Santo" - afirmou o Santo Padre ao outorgar-lhe este glorioso título.



Que o exemplo de Santa Catarina de Sena penetre em nossas almas, com a força desse mesmo fogo que ardia em seu coração, e nos traga a fidelidade plena e íntegra à Santa Igreja de Cristo, na pessoa augusta do Papa. (Santos Comentados por Mons. João Clá Dias, EP)




domingo, 3 de abril de 2016

25 de Março Anunciação

Em virtude do dia 25 de março ser Sexta-feira Santa a Festa foi transferida para a segunda-feira após a oitava da Páscoa




Se nos fosse dado contemplar a imensidade dos possíveis de Deus, ou seja, o incontável número de seres que Ele poderia ter criado em sua onipotência, veríamos criaturas semelhantes às deste mundo, mas sem os seus característicos defeitos. Por exemplo, ouriços constituídos sem meios de causar mal aos homens; pernilongos lindíssimos dotados de uma picada agradável e benfazeja; urubus de figura tão elegante quanto os seus voos, e assim por diante.
Por que não pôs Deus no universo criaturas assim, sem qualquer defeito, as quais poderiam ter sido criadas e não o foram?
Pergunta esta de difícil resposta. O certo, porém, é que no universo no qual vivemos três criaturas são insuperáveis: a humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, unida hipostaticamente à divindade; a visão beatífica e Nossa Senhora.1 Todos os outros seres, considerados individualmente, poderiam ser mais perfeitos.
Ora, este mundo composto por criaturas com deficiências é, entretanto, ótimo no seu conjunto, como ensina São Tomás de Aquino: "O universo não pode ser melhor do que é, se o supomos como constituído pelas coisas atuais, em razão da ordem muito apropriada atribuída às coisas por Deus e em que consiste o bem do universo. Se apenas uma dessas coisas se tornasse melhor, a proporção da ordem estaria destruída, como a melodia de uma cítara ficaria destruída se uma corda se tornasse mais tensa do que deve".2
O universo criado por Deus tinha de ser o que mais O glorificasse, porque Ele não poderia ter escolhido criá-lo de forma nem um pouco inferior ao mais adequado. E tudo quanto nele existe de defectivo serve para o homem ter presente a sua debilidade, fraqueza e dependência contínua de Deus. Lembra-lhe, enfim, sua contingência. É deste mundo, com deficiências, que nós fazemos parte.
As considerações acima nos preparam para analisar o papel de Nossa Senhora na Criação, que é especialmente recordado na liturgia escolhida pela Igreja para a Solenidade da Anunciação do Senhor.

O "fiat" de Maria Santíssima

Sobre a conhecidíssima e tão comentada passagem evangélica da Anunciação, pareceria não haver nada de novo a dizer. Entretanto, como um vinho excelente apresenta aspectos diferentes em cada safra, assim também acontece com o magno acontecimento da Encarnação do Verbo, no qual sempre descobriremos novas e magníficas maravilhas.

As aparências não estão à altura do acontecimento
"Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, 27 a uma Virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria".
Antes de entrar na análise da narração de São Lucas, é mister voltarmos nossa atenção para o local onde Se encontrava Maria Santíssima ao ser visitada pelo Arcanjo São Gabriel. Não se tratava de um magnífico palácio, como tantos artistas imaginaram, mas de uma casa muito modesta, com paredes de tijolos aparentes. Estava situada em Nazaré, uma cidade então insignificante, na qual a Sagrada Família viverá na pobreza, humildade e apagamento.
Não há neste episódio outros elementos cujas aparências estejam à altura do acontecimento que ali se daria, a não ser a presença da Virgem Maria, e também a de São José. Pois o elevadíssimo grau de santidade de ambos certamente transluzia em seus gestos, fisionomias e em todo o seu modo de ser.

No momento da Anunciação, Nossa Senhora rezava

 "O anjo entrou onde Ela estava...".

Ao ver iluminar-se o aposento por uma luz sobrenatural e aparecer diante d'Ela o Arcanjo São Gabriel, Maria não deu o menor sinal de espanto. Segundo vários autores, entre eles São Pedro Crisólogo e São Boaventura, Ela estava "habituada às aparições angélicas, as quais não podiam deixar de ser frequentes para Aquela que Deus havia cumulado de tantas graças, que reservava para tão altos destinos, e que os anjos reverenciavam como sua Rainha e a própria Mãe de Deus". Podemos, inclusive, conjecturar que o próprio São Gabriel não Lhe fosse desconhecido.

A graça crescia n'Ela a cada instante

e disse: ‘Alegra-Te, cheia de graça, o Senhor está contigo!'".


Assim, desde o momento de sua criação, Maria Santíssima participou da vida divina mais do que todos os Anjos e todos os bem-aventurados juntos. A tal ponto, que se Ela lhes distribuísse todas as graças das quais cada um deles tivesse necessidade, nada Lhe faltaria, pois, "sob a forma de méritos, de orações e de sacrifícios, esse rio de graça remonta a Deus, oceano da paz". A plenitude da graça de Maria, afirma São Lourenço de Bríndisi, "só é compreensível para Deus, pois só Ele abarca o abismo imenso e o quase infinito pélago dessa graça".

Causa da perturbação de Maria

 "Maria ficou perturbada com essas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação".

A reação de Nossa Senhora mostra a profundidade do seu espírito. Dotada de ciência infusa, Ela entendeu perfeitamente o alcance da altíssima afirmação do anjo, considerando não apenas o significado imediato daquelas palavras, mas também suas consequências e correlações com o panorama da História.
Contudo, sendo cheia de graça, um dos seus predicados era a humildade mais excelsa. Em nada preocupada consigo mesma, todas as suas cogitações voltavam-se para Deus e a salvação da humanidade: Quando virá o Messias? Quando se dará a redenção?
A presença de São Gabriel não Lhe causou qualquer perturbação. Sua saudação, porém, deixou-A com um ponto de interrogação, pois não podia imaginar que aquelas palavras pudessem ser aplicadas a Ela. Conforme esclarece São Tomás: "A Bem-aventurada Virgem tinha uma fé expressa na Encarnação futura: mas, por ser humilde, não tinha tão alta ideia de Si mesma. E por isso era preciso que fosse informada a respeito da Encarnação".

Medo de macular uma humildade ilibada

 "O anjo, então, disse-Lhe: ‘Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus'".

Embora sem mancha de pecado original, Nossa Senhora foi criada em estado de prova e percebia com toda clareza a necessidade da vigilância. Temia aplicar a Si as palavras do Anjo e, cedendo em algo ao orgulho, acabar por ofender a Deus.
"Não tenhas medo, Maria" significava: "Não vos preocupeis, porque vossa humildade em nada será atingida". Com essas palavras, São Gabriel A exorta a ter confiança de que jamais sairá do reto caminho. Não em razão dos seus méritos. Ele não diz: "Não tenhas medo porque és forte", mas sim "porque encontraste graça diante de Deus".

E por que encontrou Ela graça diante de Deus?

A resposta, no-la dá São Bernardo: "Se Maria não fosse humilde, não desceria sobre Ela o Espírito Santo; e, se Este não descesse, Ela não conceberia pelo poder d'Ele. Pois como poderia conceber d'Ele sem Ele? É claro, portanto, que, para Ela conceber d'Ele, ‘o Senhor olhou para a humildade de sua serva' (Lc 1, 48) muito mais do que para a sua virgindade; e, embora tenha por sua virgindade agradado a Deus, foi pela humildade que concebeu".


"Será chamado Filho do Altíssimo"

"Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus.  Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai Davi.  Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim".

Nestes três versículos, o Anjo indica as extraordinárias características d'Aquele que Nossa Senhora haveria de conceber. Elas estavam em perfeita harmonia com a Sagrada Escritura, a qual Maria Santíssima conhecia como ninguém, e com a rica imagem do Messias formada por Ela em seu espírito, ao longo dos anos.
Imaginemos qual seria a reação de uma jovem recém-casada daquele tempo, ao receber de um anjo a notícia de que o seu filho haveria de ser grande tanto na ordem sobrenatural: "será chamado Filho do Altíssimo", quanto na natural: "o Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai Davi".
Maria, entretanto, reage diante da comunicação do Anjo dando novas mostras de humildade heroica. São Gabriel lhe anuncia que será a Mãe do mais importante dos filhos de Israel: do próprio Messias! E Ela o ouve tranquila e serena, porque as suas preocupações estavam bem longe da glória pessoal.

Perplexidade diante do anúncio

"Maria perguntou ao anjo: ‘Como acontecerá isso, se Eu não conheço homem algum?'

Aqui resplandece a Fé de todo incomum de Nossa Senhora, ante o anúncio feito pelo Anjo. Ao ouvi-lo dizer "conceberás e darás à luz um filho", reconhece tratar-se de fato de uma mensagem divina, e não põe obstáculo algum à sua realização. Porém, entre as graças das quais Ela estava plena, reluzia um insuperável amor à virtude da castidade. Desposada com São José, combinou com ele manterem-se virgens por toda a vida. E é nesse sentido que se deve entender a expressão "não conheço homem algum". Podemos supor ter havido longas conversas entre Ela e São José a esse respeito, chegando à conclusão de ser claramente inspirado por Deus o voto de castidade feito por ambos. Mesmo com essa convicção bem arraigada na alma, Ela não duvidara das palavras de São Gabriel. Apenas apresenta-lhe sua perplexidade, visando conhecer mais a fundo como haveria de concretizar-se o desígnio divino.





Origem inteiramente sobrenatural do Verbo Encarnado

 "O anjo respondeu: ‘O Espírito virá sobre Ti, e o poder do Altíssimo Te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus.  Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril,  porque para Deus nada é impossível'".

Quem senão Deus, seu Criador, conhecia o amor extraordinário da Virgem Santíssima à virtude da pureza? Por isso Ele, que é a Delicadeza em essência, teve o cuidado de mandar o celeste mensageiro resolver com extraordinária elevação e reverência sua santa perplexidade.
Conhecendo por instrução divina o problema que a maternidade divina levantava n'Ela, o anjo Lhe mostra que, assim como havia concedido à sua prima Isabel conceber um filho na velhice, a Onipotência divina poderia fazê-La conceber sem concurso de varão. E Ela, resplandecente de sabedoria e inteligência, entende em toda a sua profundidade as explicações do Anjo e logo as aceita.
A origem inteiramente sobrenatural do Verbo Encarnado foi revelada naquele momento. Que considerações não deve ter feito Maria ao conhecer o alcance desse acontecimento! Maria gerou no tempo a mesma Pessoa gerada pelo Pai na eternidade

 "Maria, então, disse: ‘Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em Mim segundo a tua palavra!'. E o anjo retirou-se".

A escravidão é o estado mais deplorável para uma criatura humana. Pelo Direito Romano, quem caía nessa situação era considerado coisa, res, perdendo todos os direitos próprios à pessoa humana. E quando a Virgem Maria disse: "Eis aqui a serva do Senhor", o fez com total consciência, colocando-Se por inteiro nas mãos de Deus, com absoluta confiança na sua liberalidade.
A partir desse ato de radical aceitação, todo ele feito de humildade e de fé, operou-se logo em seguida a concepção do Verbo Encarnado no seu seio virginal. Consideremos agora um aspecto particularmente comovedor desse fiat.
O Verbo de Deus foi gerado pelo Pai desde toda a eternidade. Conhecendo-Se a Si mesmo, Ele gerou um Filho eterno sem concurso de mãe alguma, de uma forma misteriosa que nossa inteligência não consegue compreender. Ora, logo após o consentimento da Virgem - "Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em Mim segundo a tua palavra" -, o Espírito Santo iniciou n'Ela o processo de gestação do Verbo Encarnado. Ela tornou-Se Mãe sem concurso de pai natural.
Há, pois, entre o Padre Eterno e Maria Santíssima um paralelo de impressionante grandeza: ao considerar suas próprias magnificências, Este gera o Filho na eternidade; e Maria, pondo nas mãos de Deus sua própria contingência, gera o Filho de Deus no tempo!
Por ser a mais humilde de todas as criaturas, Nossa Senhora reproduz de algum modo a geração do Verbo na eternidade, ao dar origem na Terra à natureza humana de Nosso Senhor. O Pai criou todas as coisas no Verbo e pelo Verbo; pela Encarnação, Maria vai permitir ao Filho oferecer-Se em sacrifício ao Pai, para a recuperação de todas as coisas degradadas pelo pecado.18
O grandioso plano da Encarnação e da Redenção do gênero humano esteve na dependência desse fiat de Maria, porque se, por uma hipótese absurda, Ela não tivesse aceitado, não teria havido a Redenção.

A festa da harmonia no Universo


Ora, foi a Virgem Maria, com sua disponibilidade e obediência, quem introduziu no cerne da Obra divina a Criatura cume e modelo arquetípico de tudo quanto existe, da Qual tudo deflui. Por isso, a Solenidade da Anunciação do Senhor celebra a restauração da harmonia no universo. É a comemoração do dia em que a Criação passou a transluzir com um brilho todo divino, pelos méritos de Maria Santíssima.

Colaboração Irmã Nilza do Carmo