quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A Castidade da Santíssima Virgem Maria


 






Depois da queda de Adão, rebelaram-se os sentidos contra a razão, e não há para o homem mais difícil virtude a praticar do que a castidade. Conforme o Pseudo-Agostinho, por ela luta-se todos os dias, mas raramente se ganha a vitória. Mas o Senhor nos deu em Maria um grande modelo dessa virtude. Ela, com razão, é chamada Virgem das virgens, lemos em S. Alberto; e isso porque sem conselho, nem exemplo de outros, foi a primeira a oferecer sua virgindade a Deus, dando-lhe assim as outras virgens que a imitaram. Predisse-o Davi com as palavras: Virgens que te seguem serão conduzidas até ao rei...; entram no palácio do rei (Sl 44, 15 e 16). Sem conselho nem exemplo, digo eu, firmado em S. Bernardo. Ó Virgem — pergunta o Santo — quem te ensinou a agradar a Deus pela virgindade, levando na terra uma vida angélica? Ah! torna o Pseudo-Jerônimo, certamente Deus escolheu para sua Mãe esta Virgem puríssima, para que servisse a todos de exemplo de castidade. Eis a razão por que S. Ambrósio a chama de porta-bandeira da virgindade.

1. Por causa de tanta pureza, diz o Espírito Santo, é que a Virgem “é bela como a rola” (Ct 1,9)
Essa rola é Maria, a modestíssima Virgem, diz Apônio. De açucena chamam-na também: Assim como a açucena entre os espinhos, é a minha amiga entre as filhas (Ct 2, 2). Na opinião de Dionísio Cartuxo, é ela açucena entre os espinhos, porque as outras virgens, em oposição a Maria, são espinhos para si ou para os outros. Ao contrário, Maria, com a sua só presença, insinuava a todos pensamentos e afetos de pureza. Isso confirma as palavras de S. Tomás: A beleza da Santíssima Virgem despertava em quantos a viam o amor à pureza. S. Jerônimo é do parecer que S. José conservou a virgindade pela companhia de Maria. Refutando a heresia de Elvídio, que negava a virgindade da Mãe de Deus, diz o Santo doutor: Dizes que Maria não foi sempre Virgem; mas eu vou mais longe e afirmo que também José permaneceu virgem por causa de Maria.

2. Na opinião de S. Gregário Nazianzeno, a Santíssima Virgem era tão amante dessa virtude, que para conservá-la, estaria pronta a renunciar à dignidade da Mãe de Deus
É isso, com efeito, que se deduz da pergunta de Maria ao arcanjo: Como se fará isso, pois que não conheço varão? (Lc 1, 34). O mesmo afirma a resposta que deu: Faça-se em mim segundo a vossa vontade. Com esses termos significa que dá o seu consentimento, por ter sido certificada pelo anjo de que se tornaria Mãe, unicamente, por obra do Espírito Santo.

3. Na frase de S. Ambrósio é um anjo quem guarda a castidade, e é um demônio quem a perde Sim, por esta virtude os homens assemelham-se aos anjos, como diz o Senhor: Eles serão como os anjos de Deus (Mt 22, 30). 
Porém os desonestos tornaram-se odiosos a Deus, como os demônios. Uma sentença, atribuída a S. Remígio, afirma que a maior parte dos adultos se perdem por esse vício. E raro vencê-lo, repetimos com o Pseudo-Agostinho. Mas por quê? Porque não se empregam os meios para esse fim.

4. Três são esses meios, dizem com Belarmino os mestres da vida espiritual: o jejum, a fugida das ocasiões e a oração.
Sob jejum entende-se a mortificação, principalmente dos olhos e da gula. Maria Santíssima, embora cheia da divina graça, foi mortificadíssima nos olhos. Trazia-os sempre baixos e nunca os fixava em pessoa alguma, como referem o Pseudo-Epifânio e S. João Damasceno. E acentuam que, desde pequenina, causava admiração a todos por sua modéstia. Por isso foi apressadamente em visita a Isabel (Lc 1, 39), para ser menos vista em público. Narra Felisberto que Maria, quando criança, só tomava leite uma vez por dia; assim foi revelado a um ermitão chamado Félix. Durante toda a sua vida jejuou sempre, como atesta S. Gregório de Tours. Conrado de Saxônia acentua que jamais teria recebido a Virgem tantos e tamanhos favores, se não tivesse sido tão temperante, pois a gula e a graça não se dão bem. Em suma, foi ela mortificada em todas as coisas, como insinua o texto dos Cânticos: As minhas mãos destilam mirra (Ct 5, 5).

A fugida das ocasiões é o segundo meio para vencer o vício. Assim falam os Provérbios: O que evita os laços estará em segurança (11, 5). De onde então a palavra de S. Felipe Néri: Na guerra aos sentidos só vencem os poltrões, isto é, aqueles que fogem da ocasião do pecado. Maria fugia, tanto quanto possível, à vista dos homens, como indica a pressa com que foi visitar a sua prima. Aqui adverte um autor que ela deixou Isabel, antes de esta dar à luz, como se conclui das palavras de S. Lucas: E ficou Maria com Isabel  perto de três meses; depois dos quais voltou para sua casa. Entretanto completou-se o tempo de Isabel dar à luz, e deu à luz um filho (Lc 1, 56 e 57). E por que não esperou? A fim de evitar as conversas e as visitas que se sucederiam então em casa de Isabel.
O terceiro meio é a oração: “E como eu sabia que de outra maneira não podia ter continência, se Deus não ma desse... encaminhei-me ao Senhor e fiz-lhe a minha súplica” (Sb 8, 21). Sem trabalho e contínua oração a nenhuma virtude chegou a Santíssima Virgem, como consta de uma sua revelação a S. Isabel. Maria é pura e amante da oração, diz S. João Damasceno; por isso não pode suportar os impuros. Mas quem a ela recorre, basta pronunciar-lhe o nome para ser livre desse vício. Dizia o venerável João d’Ávila que muitas pessoas venceram nas tentações contra a castidade, só por meio da invocação de Maria Imaculada.

Colaboração Ir. Nilza do Carmo

terça-feira, 25 de agosto de 2015



A INGRATIDÃO OU O COMEÇO DO FIM DA AMIZADE
A ingratidão é o atestado de óbito da amizade por lesão gravíssima; ela é uma espécie de "cegueira" pela qual o ingrato vai esquecendo os benefícios recebidos. Para o ingrato, o esquecimento dos bens com os quais foi favorecido, serve de ferramenta para se autojustificar e na tentativa de desculpar se a si próprio, acaba culpando a quem lhe fez o bem.
Um detalhe importante é que, na verdade, o ingrato não deixa propriamente de enxergar os benefícios recebidos mas tende a diminuí-los, alimentando a idéia de que não eram assim tão importantes ou que de algum modo já estavam devidamente "quitados". O fundamento desta sua atitude desagradecida é um tipo de complexo de inferioridade, seguido da sensação falsa de ser injustiçado porque imagina dar mais do que recebe. Num dado momento, Judas Iscariotes imaginou que deu mais a Jesus Cristo do que dele recebeu e assim concluindo, cobrou a "indenização" do caixa dos sumos sacerdotes.
Outra nota distintiva do caráter do ingrato é a facilidade de ficar ofendido, capaz de fazê-lo, por exemplo, jogar fora uma amizade por simples dificuldades, próprias da condição humana; ele é rigoroso nas miudezas e relaxado nas coisas mais importantes de modo que, uma palavra dita em qualquer situação um pouco mais tensa pode fazer esta criatura gelatinosa sentir-se mortalmente atingida, por isso, quem lida com gente assim não pode deixar de tomar cuidado até para dizer lhe um simples "bom dia".
Vale ainda lembrar que o arrependimento não é algo normal nas pessoas ingratas. Por quê? Bem, a explicação é simples: arrepender-se e por conseguinte PEDIR PERDÃO, significaria para o ingrato sacrificar os meios pelos quais ele está convencido de que é sempre a vítima e com os quais alimenta sua alma. Arrepender-se seria então, curar-se.
Acontece que no caso do ingrato o seu diretor espiritual não é propriamente o arrependimento, mas sim o remorso, ou seja, ao remordido, diferentemente do arrependido, lhe falta coragem para ir às causas do seu estado miserável para removê-las; ele sofre porque se sabe atingido pelas conseqüências de suas ações sem nunca se responsabilizar o suficiente por elas . O arrependido, ao contrário, abre os olhos para as causas de suas ações e busca removê-las assumindo-as. Em resumo: a dor do remordido, mata; a dor do arrependido, cura.
Quanto ao que foi dito acima, não resta nenhuma dúvida: o ingrato é, sim, covarde e a sua covardia é uma picada de escorpião.
Pe. Renato Leite.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

22 de Agosto FESTA DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA




Memória mariana de origem devocional, instituída por Pio XII, a atual celebração nos convida a meditar sobre o Mistério de Cristo e da Virgem em sua intimidade e profundidade. Maria, que guarda as palavras e os fatos do Senhor, meditando-os em seu coração (Lc. 2,19), é a morada do Espírito Santo, a Sede da Sabedoria (Lc. 1,35), a imagem e o modelo da Igreja, que ouve e testemunha a mensagem do Senhor (cfr. Lc. 11,28). (Miss. Rom.)

No Martirológio Romano: Memória do Imaculado Coração da Beata Virgem Maria: guardando no próprio coração a memória dos mistérios de salvação cumpridos em seu Filho, espera com confiança o cumprimento em Cristo.


A devoção ao Imaculado Coração de Maria consiste na veneração do Coração de Maria, mãe de Jesus, e ganhou grande destaque com as Aparições de Fátima, mas a origem deste culto pode ser encontrada nas palavras do Evangelista Lucas, onde o Coração de Maria aparece como uma arca de tesouros (Lc. 2,19) que guarda as mais santas lembranças. Depois, segue aumentando na Era Patrística, tendo-se desenvolvido, na Idade Média e nos tempos modernos, por obra de grandes Santos como São Bernardo, Santa Gertrudes, Santa Brígida, São Bernardino de Sena e São João Eudes (1601-1680), que foi um grande promotor da festa litúrgica do Imaculado Coração de Maria e que, já em 1643, começou a celebrá-la com os religiosos de sua congregação. Em 1648, consegue do Bispo de Autun (França) a concessão da festa. Em 1668, a festa e os textos litúrgicos são aprovados pelo Cardeal delegado de toda a França, enquanto Roma se negava, por diversas vezes, a confirmar a festa. Foi somente após a introdução da festa do Sagrado Coração de Jesus, em 1765, que será concedida, aqui e ali, a faculdade de celebrar a festa do Coração de Maria, tanto que o Missal Romano de 1814 a elenca ainda entre as festas “pro aliquibus locis”. São João Eudes, em seus escritos, nunca separou os dois Corações de Jesus e de Maria, e enfatiza a união profunda da Mãe com o Filho de Deus encarnado, cuja vida pulsou por nove meses ritmicamente com aquela do Coração de Maria.

A festa foi instituída oficialmente em 1805, pelo Papa Pio VII. Cinquenta anos mais tarde, Pio IX aprovou a Missa e o Ofício próprios. Papa Pio XII estendeu, em 1944, a toda a Igreja, em perene memória da Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, realizada por ele em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1948, o Papa Pio XII convida a todos os Católicos a se consagrarem ao Imaculado Coração de Maria através da Encíclica Auspicia Quaedam, onde diz: 


“(...) E como o nosso predecessor de imortal memória Leão XIII, nos albores do século XX, quis consagrar todo o gênero humano ao Sacratíssimo Coração de Jesus, também nós, como que representando a família humana por ele redimida, quisemos solenemente consagrá-la ao coração imaculado de Maria virgem. Desejamos que todos façam o mesmo, sempre que a oportunidade o aconselhar; e não só em cada diocese e cada paróquia, mas também em cada família. Assim esperamos que desta consagração particular e pública nasçam abundantes benefícios e favores celestiais. Seja presságio desses favores celestes e penhor de nossa benevolência paterna a bênção apostólica que damos com efusão de coração a cada um de vós, veneráveis irmãos, a todos aqueles que de boa mente corresponderem a esta nossa carta de exortação, e de um modo particular as caríssimas crianças” (1º de Maio de 1948).

Em 1952, o Papa Pio XII consagra a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, através da Carta Apostólica Sacro Vergente Anno

O culto do Imaculado Coração de Maria recebeu um forte impulso após as Aparições de Fátima, em 1917.

Os pastorzinhos viram que Nossa Senhora tinha sobre a palma da mão direita um Coração cercado de espinhos que penetravam nele, fazendo-o sangrar horrivelmente. Era o Coração Imaculado de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, a pedir reparação...

De acordo com o legado dos pastorzinhos de Fátima, foi Nossa Senhora quem, em 1917, depois de mostrar a visão do Inferno a Lúcia, Jacinta e Francisco, lhes revelou o “Segredo”. Contava a Irmã Lúcia que: 


“(…) para salvar as almas (...) Deus quer estabelecer no mundo a Devoção ao Meu Imaculado Coração” (13 de Junho de 1917, in Memórias, da Irmã Lúcia).

Deus escolheu o Imaculado Coração de Maria, sem mancha e sem pecado, para que, assim como a salvação do mundo veio por Ela na pessoa de Jesus Cristo, também é por meio dEla que nós haveremos de ser salvos. Nossa Senhora afirma: “Se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão a paz” (in Memórias, da Irmã Lúcia).
A Liturgia da festa ressalta a intensa atividade espiritual do Coração da primeira discípula de Cristo, e apresenta Maria propensa, no íntimo de seu coração, à escuta e ao aprofundamento da palavra de Deus. Maria medita em seu Coração os eventos em que é envolvida junto com Jesus, procurando penetrar o mistério que está vivendo: guardar e meditar em seu Coração todas as coisas, a faz descobrir a vontade do Senhor, como um pão que a nutre no íntimo, como uma água que brota em um terreno fecundo. Com este seu modo de agir, Maria nos ensina a nos alimentarmos em profundidade do Verbo de Deus, a viver saciando-nos e abeberar-nos dEle, e, sobretudo, a encontrar Deus na meditação, na oração e no silêncio. Maria, enfim, nos ensina a refletir sobre os acontecimentos de nossa vida cotidiana e a descobrir neles Deus que se revela, inserindo-se em nossa história.
O objeto primário da festa do Coração Imaculado de Maria é a Sua pessoa. O objeto secundário é o Coração simbólico, isto é, o coração físico da Virgem, por ser o símbolo de seu amor e de toda sua vida íntima, sendo a expressão de todos os seus sentimentos, afetos, e, sobretudo, de sua ardentíssima caridade para com Deus, para com seu Filho e para com todos os homens, que lhe foram confiados solenemente por Jesus agonizante.

A festa sugere o louvor e ação de graças ao Senhor por nos haver dado uma Mãe tão poderosa e misericordiosa, à qual nós podemos nos dirigir confiantemente, em qualquer necessidade. Inspira também que conduzamos uma vida segundo o Coração de Deus, e que peçamos à Virgem Santa a chama de uma ardente caridade.


 



Colaboração Ir. Nilza do Carmo

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O DOM DA PUREZA

O dom da pureza
Pureza, pureza, pureza! exclamava Santa Maria Madalena de Pazzi às suas religiosas, todas as vezes que elas se preparavam para receber a santa comunhão. Pureza de corpo, pureza de alma, pureza de coração, para receber o Deus de toda pureza. Digo-lhes a mesma coisa, meus caros auditores: sede puros, se quiserdes receber o rei das almas puras; sede puros, se quiserdes abrigar em vosso coração o rei das virgens. Pureza, pureza; sem o quê, no lugar de vos tornardes santos, vós vos tornareis sacrílegos; no lugar de crescerdes na graça de Deus, incorrereis cada vez mais em vossa desgraça.


  Sabeis o que fazeis quando recebeis vosso Deus em um coração impuro, manchado pelo pecado mortal? Forçais Jesus a habitar com o demônio. Pois, quando tendes um pecado mortal na alma, o demônio aí reina como mestre. Aí ele está como sobre seu trono, de modo que recebendo Jesus nesse estado, forçais o doce Salvador a se colocar sob os pés do demônio, o relegais a um canto de vosso coração, como um estranho desconhecido que é desprezado. 

  Raios da justiça divina, por que estais mudas? Ribombem completamente para vingar um ultraje tão atroz cometido contra o Deus de majestade! Não, aquele que recebe Deus em estado de pecado mortal não merece nenhuma compaixão, não é digno de piedade. Que crime! Um Deus aos pés do demônio! Um Deus aos pés do demônio! Ouvi-me bem. Se um homem distinto viesse até vossa casa e pedisse para passar uma noite, teríeis coragem de mandá-lo se deitar em uma cama de um leproso completamente coberto de feridas e de pus? Não obstante ousais, por uma comunhão feita em estado de pecado mortal, colocar sob os pés do demônio o vosso Salvador, o vosso Deus! Ó! Que crime hediondo! Que desordem abominável!

  Um dia Santa Margarida de Cortona, assistindo à missa, viu, na elevação, Jesus menino entre as mãos do padre. Porém as mãos eram horríveis, repugnantes e mais negras que o carvão, e esse padre desafortunado tinha o aspecto de um demônio. Ao mesmo tempo, a Santa ouviu o Menino divino lhe dizer com um tom lamuriento: “Veja, veja Margarida, como sou tratado por esse miserável, assim como por centenas e milhares de outros, que me recebem em estado de pecado mortal”. Ah! meu doce Jesus, compreendo bem porque eles vos tratam indignamente, pois eles vos forçam a viver em companhia dos demônios. Ó! Que crime! Que desordem horrível! Não há aqui nenhum desses pecadores sacrílegos? Ah! para pecado semelhante um inferno será pouco demais, ele merece mil deles. E aí daquele que durante essa santa missão não abraçar a penitência com fervor!

  Porém percebo, infelizmente! que esses infelizes têm o coração duro demais e não estão dispostos a chorar por suas execráveis malícias. Então o façamos por eles, meus irmãos, e, prostrados diante do Santíssimo Sacramento, peçamos perdão a Jesus por tantos sacrilégios que foram cometidos na Igreja de Deus. Ah! Senhor, quantas vezes vossos fiéis, vossos próprios ministros profanaram vossos templos, vossos altares! Quantos sacrilégios horríveis são cometidos por toda parte! Que excesso de misericórdia vos é necessário para perdoar crimes tão grandes! Ah! Perdoe, Senhor, perdoe: Parce, Domine, parce.

  Batamo-nos todos no peito, dizendo: Perdão, ó meu Jesus, perdão! Ei-nos aqui aos vossos pés, Senhor, aflitos, contritos, dispostos a odiar todos os nossos pecados, sem exceção, mas particularmente aqueles que cometemos ao vos ultrajar no Sacramento de vosso amor. Ó bondade, ó majestade, ó beleza infinita! Como ousamos vos ofender, estando nós obrigados a vos amar? Perdão, ó meu amável Jesus, perdão!

  Porém como satisfaremos a justiça divina por tais crimes? São João Crisóstomo diz que a boca do cristão que comunga se enche de fogo: Os quod igne spirituali repletur. De um fogo que consome e inflama: que consome a mancha de todos os pecados que cometemos e de todos os maus hábitos que contraímos. Que inflama de amor nosso coração, nossos sentidos, e todas as potências do nosso ser, e renova o homem inteiro. Mas tudo isso deve ser entendido daqueles que comungam em estado de graça, e fazem um uso adequado desse Sacramento divino. Quanto a vós, pecador, não vedes o abismo onde vos precipitardes? Ficai atento, pois o raio da ira divina está suspenso sobre vossa cabeça: muitos doutores ensinam que o castigo mais comum cujo Deus puni os pecadores sacrílegos, tais como vós, é, sabeis qual? uma morte súbita. Ficai atento para que esse castigo terrível não vos atinja. Assim, a fim de evitar o golpe, faças a tempo uma boa confissão.

  Consequentemente, a prática que vos recomendo nessa noite, e que é outrossim a mais necessária, é uma boa e santa confissão. Confessai-vos bem, meus irmãos, confessai-vos bem. Após terdes feito uma boa confissão, fareis também uma boa e santa comunhão.




São Leonardo de Porto Mauricio, in  "Sermons, exortations et conferénces pour les missions".

Colaboração Ir. Nilza do Carmo

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A Festa da Assunção no Paraíso





Do livro Glórias de Maria, de Santo Afonso Maria de Ligório

Santo Estanislau Kostka
Este santo jovem, tão dedicado ao amor de Maria, ouviu no primeiro dia do mês de agosto uma conferência, que o padre Canísio fizera aos noviços da Companhia. Aconselhou-lhes o santo pregador, e com muita insistência, que vivessem cada dia como se fosse o último de sua vida, findo o qual lhes fosse preciso comparecer perante o tribunal divino. Terminada a conferência, dissera Estanislau aos companheiros que aquele conselho era, particularmente para ele, a voz de Deus, porquanto havia de morrer naquele mesmo mês. Isto disse, ou porque Deus expressamente lho revelou, ou ao menos por certo pressentimento do que ia acontecer. Quatro dias depois foi o santo jovem com o padre Emanuel de Sá visitar a igreja de S. Maria Maior. Em caminho discorreu sobre a próxima festa da Assunção e disse: Padre, creio que nesse dia se vê um novo paraíso, no paraíso, contemplando-se a glória da Mãe de Deus, coroada Rainha do céu e colocada tão próxima ao Senhor, sobre todos os coros dos anjos. Dizem que em cada ano se renova esta festa no céu. Creio nisso e espero que verei a primeira que lá se fizer.
Segundo uma aceitável narração, nesse mesmo dia Estanislau escreveu uma carta à sua querida Mãe do céu, na qual lhe pedia a graça de assistir à celebração de sua festa no paraíso. Tocando-lhe então por sorte o glorioso mártir S. Lourenço, como protetor do mês (segundo o uso da Companhia), comungou no dia de sua festa e depois suplicou ao Santo que apresentasse a carta à Mãe de Deus, e intercedesse por ele para um favorável despacho da mesma.
No fim desse mesmo dia veio-lhe a febre e, embora fraca, deu-lhe contudo como certa a graça pedida quanto a uma próxima morte. Com efeito, ao deitar-se na cama, disse muito alegre e risonho: Daqui não me levantarei mais. E ao padre Cláudio Aquaviva acrescentou: Meu padre, creio que S. Lourenço já me obteve de Maria a graça de me achar no céu pela festa de sua Assunção. Mas ninguém ligou importância às suas palavras. Na vigília da festa o mal continuava a parecer leve. Disse, contudo, o Santo a um irmão, que morreria na noite seguinte. Ao que este respondeu: Ó irmão, maior milagre seria morrer, do que sarar de um mal tão insignificante. Entretanto, eis que, passada a meia-noite, caiu o Santo num desfalecimento mortal, começando a suar frio e a perder as forças. Acudiu o Superior, a quem Estanislau rogou que o mandasse pôr sobre o chão, para morrer como penitente. Isto se lhe concedeu para o contentar e foi posto no chão sobre uma coberta. Depois confessou-se e recebeu o viático, não sem comover até às lágrimas os assistentes. Ao entrar no quarto o Santíssimo Sacramento, viram estes o Santo jovem todo radiante de celeste alegria nos olhos, e o rosto todo ruborizado nas chamas de um santo amor, que até parecia um serafim. Recebeu também a Extrema-Unção e entrementes nada fazia senão levantar os olhos ao céu, e ora contemplar, ora beijar e apertar contra o peito amorosamente uma imagem de Maria. Perguntou-lhe um padre: De que vos serve nas mãos este rosário, se o não podeis recitar? Serve para consolar-me – responde o Santo – pois é uma coisa que pertence à minha Mãe. Se assim é, tornou-lhe o padre, quanto maior será vossa consolação, vendo-a e beijando-lhe em breve as mãos, no céu! Então o santo, com o rosto todo inflamado, levantou as mãos para o céu, exprimindo assim o desejo de achar-se na presença de Maria. Apareceu-lhe depois essa querida Mãe como ele mesmo disse aos circunstantes.

E pouco depois ao amanhecer do dia 15 de agosto, expirou como um bem-aventurado, com os olhos fitos no céu, sem fazer movimento algum. Tendo-lhe alguém apresentado a imagem de Maria e notando que ele não se interessava mais por ela, conheceram os presentes que Estanislau passara desta à melhor vida no céu. Já havia partido para ir beijar os pés de sua Rainha no paraíso.

Colaboração Ir. Fernando de Nossa Senhora de Fátima

O céu aberto pela prática das três Ave-Marias




“Um dos meios de salvação mais eficazes e um dos sinais mais seguros de predestinação é, indubitavelmente, a devoção à Santíssima Virgem. Todos os Santos Doutores da Igreja são unânimes em dizer com Santo Afonso Maria de Ligório: “Um servo devoto de Maria nunca perecerá.” 
O mais importante é perseverar fielmente nesta devoção até a morte. 
Haverá prática mais fácil ou mais adaptável a todos que a recitação diária das três Ave-Marias, em honra dos privilégios outorgados à Santíssima Virgem pela Trindade Adorável? 
Um dos primeiros a rezar as três Ave-Marias e a recomendá-las aos outros foi o ilustre Santo Antônio de Lisboa. O Seu objetivo especial nesta prática foi honrar a Virgindade sem mácula de Maria e guardar uma pureza perfeita da mente, do coração, e do corpo no meio dos perigos do mundo. Muitos, como ele, têm sentido os seus efeitos salutares. 
Mais tarde, o célebre missionário São Leonardo de Port-Maurice rezava as três Ave-Marias, de manhã e à noite, em honra de Maria Imaculada, para obter a graça de evitar todos os pecados mortais durante o dia, ou durante a noite. Além disso, prometeu de um modo especial a salvação eterna a todos aqueles que permanecessem fiéis a esta prática. 
Depois do exemplo daqueles dois grandes Santos Franciscanos, Santo Afonso Maria de Ligório adotou esta prática piedosa e deu-lhe o seu apoio entusiástico e poderoso. Não só a aconselhava, como a impunha em penitência àqueles que não tivessem adotado este bom costume. 
O Santo Doutor exorta, em particular, os padres e confessores a velarem cuidadosamente para que as crianças sejam fiéis em rezar diariamente as suas três Ave-Marias, de manhã e à noite. E, melhor ainda, São Leonardo de Port-Maurice recomendava a todos esta santa prática: “aos piedosos e aos pecadores, aos jovens e aos velhos”. 
Até as pessoas consagradas a Deus obterão desta prática muitos frutos preciosos e salutares. Exemplos numerosos demonstram que agradáveis são à Mãe de Deus as três Ave-Marias e que graças especiais obtêm, durante a vida e à hora da morte, para aqueles que nunca as omitem todos os dias, sem exceção. 
Esta prática foi revelada a Santa Melchtilde (Século XIII) com a promessa de uma boa morte se fosse fiel a ela todos os dias. 
Está escrito também nas revelações de Santa Gertrudes: “Enquanto esta Santa cantava a Ave-Maria nos cantos matinais da Anunciação, viu subitamente três chamas brilhantes brotarem do Coração do Pai, do Filho e do Espírito Santo, as quais penetraram o Coração da Santíssima Virgem”. E logo escutou as seguintes palavras: “Depois do Poder do Pai, da Sabedoria do Filho e da Ternura misericordiosa do Espírito Santo, nada se aproxima do Poder, da Sabedoria e da Ternura misericordiosa de Maria”. 
Sua Santidade Bento XV elevou a Confraria das Três Ave-Marias a uma Arquiconfraria, outorgando-lhe indulgências preciosas com o poder de unir, assim, todas as Confrarias do mesmo tipo, e comunicar-lhes as suas próprias indulgências. 
Prática: Reze, de manhã e à noite, três Ave-Marias em honra dos três grandes privilégios de Nossa Senhora, seguidas desta invocação: de manhã - “Ó minha Mãe, livrai-me do pecado mortal durante este dia”; à noite - “Ó minha Mãe, livrai-me do pecado mortal durante esta noite”. 
(Indulgências de 200 dias outorgadas por Leão XIII, 300 dias para os membros da Arquiconfraria das Três Ave-Marias, por Bento XV, e a Bênção Apostólica por São Pio X.)

Colaboração Ir. Rodrigo de Santo Antonio

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

15 de Agosto Assunção de Nossa Senhora

A festa da Assunção nos convida a meditar sobre a glória inefável
da  Virgem Maria,  o Paraíso de Deus.
Quanto mais o homem procura aprofundar-se no conhecimento de Deus, mais compreende que não conseguirá abarcá-Lo, tais as grandezas e os mistérios com os quais se depara.
O Criador, que estabelece as regras, se apraz em criar magníficas exceções. Três criaturas não podiam ser criadas em grau mais excelente, ensina-nos a Teologia. A primeira delas é Jesus Cristo, Homem-Deus: impossível ser mais perfeito, nada haveria a acrescentar. A segunda, Maria: "quase divina", é a expressão utilizada por vários teólogos para se referir à Mãe do Redentor. E, por fim, a visão beaASSUNÇAO DE MARIA_5.jpgtífica, o Céu: o prêmio reservado aos justos não poderia ser melhor nem maior. É o próprio Deus que Se dá aos Bem-aventurados!
Por que morreu a Mãe da Vida?
Em Maria Santíssima está a plenitude de graças e de perfeições possíveis a uma mera criatura. Segundo a bela expressão de Santo Antonino, "Deus reuniu todas as águas e chamou-as mar, reuniu todas as suas graças e chamou-as Maria". Desde toda a eternidade, o decreto divino estabelecia o singularíssimo privilégio de ser a Virgem Santíssima concebida livre da mancha original. Privilégio este próprio Àquela que geraria em seu seio o próprio Deus.
Transcorrida sua vida nesta terra, o que aconteceria com nossa Mãe?
Ela, que havia dado à luz, alimentado e protegido o Menino-Deus, e recebido em seus braços virginais o Corpo dilacerado de seu Filho e Redentor, estava prestes a exalar o último suspiro. Como poderia passar pelo transe da morte aquela Virgem Imaculada, nunca tocada pela mais leve sombra de qualquer falta?
Sem embargo, como o suave declinar do sol num magnífico entardecer, a Mãe da Vida rendia sua alma. Por que morria Maria? Tendo Ela participado de todas as dores da Paixão de Jesus, não quis deixar de passar pela morte, para em tudo imitar seu Deus e Senhor.
De que morreu Maria?
Perfeitíssima era a natureza da Virgem Maria. Com efeito, afirma Tertuliano que "se Deus empregou tanto cuidado ao formar o corpo de Adão, pela razão de seu pensamento voar até Cristo, que deveria nascer dele, quanto maior cuidado não terá tido ao formar o corpo de Maria, da qual devia nascer, não de modo remoto e mediato, mas de modo próximo e imediato, o Verbo Encarnado?" (1)
Ademais, escreveu Santo Antonino, "a nobreza do corpo aumenta e se intensifica em proporção com a maior nobreza da alma, com a qual está unido e pela qual é informado. E é racional, pois a matéria e a forma são proporcionadas uma à outra. Sendo, portanto, que a alma da Virgem foi a mais nobre, depois da do Redentor, é lógico concluir-se que também seu corpo foi o mais nobre, depois do de seu Filho" (2).
À alma santíssima de Maria, concebida sem pecado original e cheia de graça desde o primeiro instante de sua existência, correspondia, portanto, um organismo humano perfeitíssimo, sem o menor desequilíbrio.
Em conseqüência de sua virginal natureza, Nossa Senhora foi imune a qualquer doença, e jamais esteve sujeita à degenerescência do corpo causada pela idade. De que morreu, pois, a Mãe de Deus?
O termo da existência terrena de Maria deveu-se à "força do divino amor e ao veemente desejo de contemplação das coisas celestiais, que consumiam seu coração" (3). A Santíssima Virgem morreu de amor! São Francisco de Sales assim descreve esse sublime acontecimento:
"Quão ativo e poderoso (...) é o amor divino! Nada de estranho se vos digo que Nossa Senhora dele morreu, pois, levando sempre em seu coração as chagas do Filho, padecia- as sem consumir-se, mas finalmente morreu pelo ímpeto da dor. Sofria sem morrer, porém, por fim, morreu sem sofrer. "Oh, paixão de amor!
Oh, amor de paixão! Se seu Filho estava no Céu, seu coração já não estava n'Ela. Estava naquele corpo que amava tanto, ossos de seus ossos, carne de sua carne, e ao Céu voava aquela águia santa. Seu coração, sua alma, sua vida, tudo estava no Céu: por que haviam de ficar aqui na terra?
"Finalmente, após tantos vôos espirituais, tantos arrebatamentos e tantos êxtases, aquele castelo santo de pureza e humildade rendeu-se ao último assalto do amor, depois de haver resistido a tantos. O amor A venceu, e consigo levou sua benditíssima alma" (4).
Essa morte de Maria, suave e bendita como um lindo entardecer, a Igreja designa pelo sugestivo nome de "dormição", para significar que seu corpo não sofreu a corrupção.
Cheia de graça e cheia de glória
Quanto durou a permanência do puríssimo corpo de Maria no sepulcro?
Não o sabemos. Mas, segundo a tradição, muito pouco tempo esteve a alma separada de seu corpo. E, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, afirma o Papa Pio XII: "Por um privilégio inteiramente Asunción de María_4_1.jpgsingular, Ela venceu o pecado com sua Conceição Imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem teve de esperar a redenção do corpo até o fim dos tempos" .
Assim, resplandecente de glória, a alma santíssima de Nossa Senhora reassumiu seu virginal corpo, tornando-o completamente espiritualizado, luminoso, sutil, ágil e impassível.
E Maria - que quer dizer "Senhora de Luz" - elevou-se em corpo e alma ao Céu, enquanto as incontáveis legiões das milícias angélicas exclamavam maravilhadas ao contemplar sua Soberana cruzando os umbrais eternos: "Quem é esta que surge triunfante como a aurora esplendorosa, bela como a lua, refulgente e invencível como o sol que sobe no firmamento e terrível como um exército em ordem de batalha?" (5).
E ouviu-se uma grande voz que dizia: "Eis aqui o tabernáculo de Deus" (Ap 21, 3). A Filha bem-amada do Pai, a Mãe virginal do Verbo, a Esposa puríssima do Espírito Santo foi coroada, então, pelas Três Divinas Pessoas para reinar no universo, pelos séculos dos séculos, "à direita do Rei" (Sl 44, 10).
O dogma
A verdade desta glorificação única e completa da Santíssima Virgem foi definida solenemente como dogma de Fé pelo Papa Pio XII, no dia 1º de novembro de 1950, com estas belas palavras:
"Depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a luz do Espírito de verdade, para a glória de Deus onipotente que à Virgem Maria concedeu sua especial benevolência, para a honra de seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória de sua augusta Mãe e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Bem-aventurados Apóstolos São Pedro e São Paulo e com a Nossa, pronunciamos, declaramos e definimos que: A Imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial". (Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2004, n. 32, p. 18 à 20)

Ascensão de Nosso Senhor e Assunção de Maria
É comum haver certa confusão de conceitos a respeito da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Assunção de Nossa Senhora. O famoso teólogo Fr. Antonio Royo Marin elucida a questão:
Não é exata, portanto, a distinção que estabelecem alguns entre a Ascensão do Senhor e a Assunção de Maria, como se a primeira se distinguisse da segunda pelo fato de ter sido feita por sua própria virtude ou poder, enquanto a Assunção de Maria necessitava do concurso ou ajuda dos Anjos. Não é isso. A diferença está em que Cristo teria podido ascender ao Céu por seu próprio poder ainda antes de sua morte e gloriosa ressurreição, enquanto que Maria não poderia fazê-lo - salvo um milagre - antes de sua própria ressurreição.

Porém, uma vez realizada esta, a Assunção se verificou utilizando sua própria agilidade gloriosa, sem a necessidade do auxílio dos Anjos e sem milagre algum ("La Virgen María", pp. 213-214).
ASSUNÇÃO DE MARIA

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Santa Clara - 12 de agosto



Santa Clara trabalhou incansavelmente na Seara do Senhor durante seus
41 anos de vida monástica. Recebeu de seu Divino Esposo grandes graças
místicas. Foi favorecida com o  dom de operar milagres.

Inúmeros literatos, novelistas e romancistas ganharam celebridade narrando epopéias fictícias, produto de sua fértil imaginação. Nenhum deles, entretanto, seria capaz de inventar a história que Santa Clara deixou impressa no livro da vida, não imaginável pela mente humana..
A começar pela maneira como recebeu o nome de Clara, que significa Resplandecente. Pouco antes do seu nascimento, sua piSta Clara de Assis.jpgedosa mãe, rezando diante de um crucifixo pelo bom êxito de sua entrada no mundo, ouviu uma voz que lhe disse: “Não temas, darás ao mundo uma luz que tornará mais clara a própria luz. Por isso, chamarás Clara à menina”.
Luta para seguir a Vocação
Veio ela à luz em 11 de julho de 1193. Seus pais eram de família nobre e cavalheiresca, e donos de grande mfortuna. Desde tenra infância, causava admiração por suas virtudes, gostava da oração e desprezava os bens deste mundo. Jovem de grande formosura, de cabelos dourados e traços puros, muito cedo consagrou a Deus sua virgindade, desejosa de entregar-se por inteiro à Beleza infinita.
Na flor da mocidade, aos 16 anos, ouviu diversas vezes as pregações de um frade cuja conversão havia comovido toda a cidade de Assis: São Francisco. A exemplo de Nossa Senhora, Clara meditava em seu coração as palavras incisivas do jovem pregador e não tardou a compreender que estava chamada a imitá-lo na santa vida que ele levava. Resolveu, então, tudo abandonar para seguir aquela testemunha viva de Deus.
Seus pais, porém, tinham outros planos… Juntando à formosura, à nobreza e à riqueza um temperamento amável, essa moça tinha diante de si todas as possibilidades de um casamento brilhante e… proveitoso à família. Começou então para ela, não a luta de Santa Joana d’Arc nos campos de guerra, mas uma árdua batalha de palavras e atitudes para convencer seus pais a aceitarem uma decisão já tomada e irrevogável.
Filha e discípula de São Francisco
No domingo de Ramos de 1212, a jovem Clara se lançou numa aventura tão heróica que, a não ser inspirada pelo Espírito de Deus, faria tremer o mais audacioso dos Cruzados. Subtraindo- se à vigilância dos pais, acompanhada por uma parenta, foi ela confiar sua vocação ao bispo Guido, e seu porvir a um novo pai: São Francisco, o qual se tornou seu guia espiritual.
Diante da imagem de Santa Maria dos Anjos, a jovem renunciou ao mundo por amor ao Menino Jesus, posto numa pobre manjedoura. Cobriu-se de uma túnica de lã e cingiu-se de uma corda, à maneira dos frades franciscanos, aos quais entregou suas luxuosas vestes. O próprio São Francisco cortou sua cabeleira de ouro e ela cobriu a cabeça com um véu negro, calçou sandálias de madeira e pronunciou os votos.
Inconformados, seu pai e alguns parentes tentaram dissuadi-la de seguir o caminho por ela escolhido. Porém, firme na sua decisão, ela não se deixou em nada abalar pelos rogos e promessas que lhe fizeram. Quiseram, então, arrancá-la à força do Convento. Ela se pôs junto do altar e retirou o véu negro, mostrando-lhes a cabeça raspada, sinal do seu definitivo adeus ao mundo. /p>
A inconformidade da família cresceu quando sua irmã Inês, por força das orações de Clara, foi juntar-se a ela no mesmo ideal de vida. Nova investida dos parentes. Doze homens fortes e bem armados, comandados pelo tio Monaldo, receberam ordens do pai para trazer Inês de volta, ainda que por meios violentos. Diante daquela demonstração de força, as freiras de Santo Ângelo decidiram deixar a jovem partir.
Esta, porém, disposta a tudo, reagiu tenazmente à pretensão paterna. Arrastada pelos cabelos por um dos esbirros e espancada com brutalidade, ela gritava, pedindo socorro a Clara. A Santa rezava, invocando ajuda de Deus. De súbito, o corpo da moça torna-se pesado e rígido como um compacto bloco de pedra. Os doze robustos homens esforçam-se por arrastá-la. Tomado de fúria, o tio tenta esmagar-lhe a cabeça com suas luvas de ferro, mas fica com o braço paralisado no ar. Clara, então, aproxima-se, toma sua irmã toda esfolada, semimorta, e a reconduz ao convento. Perplexos, os agentes da prepotência paterna se retiram.
A partir deste fato, a família não mais pôs obstáculos à vocação das filhas. A fortaleza espiritual da virgem frágil havia mdomado a força bruta da matéria. Anos depois, outra irmã, Beatriz, foi juntar-se a elas no Convento de Santo Ângelo. Finalmente, Santa Clara teve a consolação de ver sua mãe e muitas outras damas da cidade entrarem pela via de santificação aberta por ela, nas pegadas de São Francisco.
Fundadora e Abadessa
São Francisco escreveu uma “Regra de Vida” para as freiras, a qual se resumia na prática da Pobreza Evangélica. E em 1215 obteve para elas a aprovação do Papa Inocêncio III. Nessa ocasião, Clara, por ordem expressa do Santo Fundador, aceitou o encargo de Abadessa. Estava fundada a Ordem das Clarissas.
Com a morte do seu pai, Clara herdou uma grande fortuna, da qual nada reteve para o convento. Distribuiua totalmente aos pobres. O Papa Gregório IX procurou fazê-la aceitar para si e para o convento alguns bens temporais, argumentando que podia, para esse fim, desligá-la do voto de pobreza. Ela respondeu:
— Santo Padre, desligai-me dos meus pecados, mas não da obrigação de seguir Jesus Cristo!
A mais perfeita imagem de São Francisco
Uma das mais admiráveis conquistas de São Francisco foi Santa Clara, cujo nome parecia projetar luz e cujo simples retrato, estampado numa das paredes da basílica de Assis, ainda hoje comove o visitante com seu encanto misterioso, penetrante e atraente. Assim como a Virgem Maria é o mais perfeito reflexo de Jesus Cristo, a Fundadora das Clarissas, à maneira feminina, projeta a imagem mais perfeita de São Francisco de Assis.
Imensa era a admiração de Santa Clara e suas filhas pelo seu Pai espiritual. Costumava ela dizer-lhe: “Dispõe de mim como te aSanta Clara de Asis Convento Clarisas Derio Vizcaya.jpgprouver. Estou às tuas ordens. Depois que fiz a Deus o sacrifício de minha vontade, não mais me pertenço!” Conta-nos o historiador Joergensen que, “não obstante a humildade do Santo, ele teve de reconhecer em que alto grau de admiração era tido por Clara e suas freiras, e de compreender como grande parte dos sentimentos religiosos delas se ligava a esta veneração para com sua pessoa”.
Instrumento para a realização de um plano de Deus
Um biógrafo de Santa Clara observa que, nessa época na qual a Cristandade começava a imergir num processo de decadência, o mundo já parecia decrépito e envelhecido. Escurecia-se a visão da Fé, vacilavam os costumes cristãos na sociedade, enfraquecia-se o vigor dos grandes empreendimentos pela glória de Deus e salvação das almas. O ressurgimento dos antigos vícios pagãos veio agravar essa decadência.

        A Cristandade tendia para a moleza, o relaxamento, a perda do senso do sobrenatural, e se inebriava com os bens materiais proporcionados pelo avanço da civilização.
Nesse contexto, interveio Deus, suscitando varões como São Francisco e São Domingos, verdadeiros luminares do mundo, mestres e guias dos povos. Com eles despontou um fulgor de meio-dia num mundo em ocaso. A Providência Divina não haveria de deixar sem ajuda o sexo mais frágil. Por isto, suscitou Santa Clara, acendendo nela uma luz claríssima e apresentando-a como modelo a ser imitado pelas mulheres. Os resultados não se fizeram esperar.
A santidade arrasta
Rapidamente se espalhou a fama de santidade de Clara. De toda parte as virgens acorriam a ela, querendo, a seu exemplo, se consagrarema Cristo. Não só isto. Tomadas de admiração pela virgindade, as mulheres já casadas sentiram um forte convite da graça para viverem mais castamente, segundo o seu estado. Nobres e ilustres senhoras, abandonando vastos palácios, construíram sentiram um forte convite da graça para viverem mais castamente, segundo o seu estado. Nobres e ilustres senhoras, abandonando vastos palácios, construíram mosteiros para neles viverem com grande honra, pelo amor de Cristo.
O encanto pela pureza foi reanimado até mesmo em rapazes, os quais, pelo exemplo de Santa Clara e suas filhas, passaram a desprezar os prazeres enganosos da carne e foram procurar a verdadeira felicidade nos mosteiros dos frades franciscanos ou dominicanos. Aquele século viu com admiração e espanto uma prodigiosa inversão de conceitos. Tornou-se comum ver mães oferecerem suas filhas a Cristo, ou as filhas arrastarem suas mães. A irmã atraía as irmãs; e a tia, as sobrinhas. Todas com fervorosa emulação desejavam servir a Cristo, em troca de uma parte nessa vida angelical que Clara fez brilhar nas trevas do mundo.
A novidade de tais sucessos correu pelo mundo inteiro, ganhando almas para Cristo em toda parte. Da clausura monástica, ela começou a iluminar todo o mundo. A fama de suas virtudes invadiu os salões das senhoras ilustres, chegou aos palácios das duquesas e penetrou nos aposentos das rainhas. A nata da nobreza passou a seguir suas pegadas. Santa Clara abrira o caminho para se propagar a observância da castidade no mundo, imprimindo uma vida nova ao estado de virgindade.
Austeridade alegre e feliz
A santa Abadessa era um exemplo vivo para suas filhas espirituais. Era a primeira a cumprir a regra na perfeição. À imitação de São Francisco, essas freiras praticaram austeridades até então desconhecidas do sexo feminino. Usavam um rústico cilício feito de crina de animal, andavam descalças, dormiam no chão, tendo por leito agressivos ramos e por travesseiro um duro pedaço de pau. Jejuavam nas vigílias de todas as festas da Igreja, passavam a pão e água todo o tempo da Quaresma. Durante o Advento — 11 de novembro ao dia de Natal — não tomavam alimento algum nas segundas, quartas e sextas-feiras. E ainda se submetiam a rudes disciplinas. Em meio a todas essas austeridades, nada se notava de melancolia ou tristeza em Santa Clara. Pelo contrário, seu rosto era sempre jovial, radiante de felicidade, cheio de encantadora serenidade e doçura, só falando de coisas alegres.
À imitação do Redentor, ela lavava os pés das irmãs, servia a mesa e cuidava das enfermas, principalmente daquelas vítimas das doenças mais repugnantes. Ela mesma freqüentemente doente, entretanto, nunca deixava de trabalhar. Quando não podia se levantar, acomodava-se no leito e punha-se a bordar paramentos para as igrejas pobres.
A formação diária das Irmãs
Morte de Santa Clara de Assis.jpg
Morte de Santa Clara de Assis,
por Murillo, século XVII
A santa Fundadora formava suas filhas espirituais com a pedagogia aprendida do Divino Mestre. Primeiro, mostrava-lhes como afastar da alma toda agitação, para poderem firmar-se somente na intimidade de Deus. Depois, ensinava-as a não se deixarem levar pelas lembranças dos ambientes sociais que deixaram, para viverem só para Cristo. Tinha cuidado em lhes fazer notar como o demônio insidioso arma laços ocultos para as almas puras e fervorosas, diferentes das tentações com que procura levar ao pecado as pessoas mundanas. Queria que todas tivessem tempos certos de trabalhos manuais, para fugir do torpor da negligência.
No seu convento, eram perfeitas a observância do silêncio e a prática da honestidade. Entre essas virgens, não havia conversas vãs nem palavras levianas ou frívolas. A própria mestra, de poucas palavras, resumia em alocuções breves a abundância de sua mente.
“Vai em paz, minha alma!”
Santa Clara trabalhou incansavelmente na Seara do Senhor durante seus 41 anos de vida monástica. Recebeu de seu Divino Esposo grandes graças místicas. Foi favorecida com o dom de operar milagres, do qual fez uso largamente em benefício de inúmeros doentes. O próprio Papa — que bem sabia como é livre o acesso das virgens puras à presença da Divina Majestade — muitas vezes dirigia-se a ela, pedindo suas valiosas orações. E sempre foi prontamente atendido.
Os rigores da regra, as fadigas dos muitos trabalhos, a vida de mortificação levaram-na a contrair uma incômoda enfermidade que ela carregou com ufania ao longo dos últimos 28 anos de sua vida. Em seu leito de morte, teve a graça insigne de receber a visita do Papa Inocêncio IV, acompanhado de seus cardeais. Entregou sua luminosa alma a Deus no dia 11 de agosto de 1253, aos 60 anos de idade.
Sua última conversa foi com sua própria alma: “Vai em paz minha alma! Tens um guia seguro que te mostrará o caminho: Aquele que te criou, santificou, amou e não cessou de vigiar com ternura de uma mãe que zela pelo filho único de seu amor. Dou graças e bendigo ao Senhor porque Ele criou a minha vida”. Ouvindo-a falar, uma irmã lhe perguntou:
— Com quem conversavas, minha Madre?
— Com minha alma — respondeu a Santa.
Em 1255, menos de dois anos após sua morte, foi incluída no catálogo dos santos pelo Papa Alexandre IV, ante a evidência dos milagres obtidos através de sua intercessão. Desde então, é uma lâmpada colocada sobre o candelabro para iluminar todos os que habitam a casa do Senhor.
SANTA CLARA DE ASSIS

Colaboração Ir. Nilza do Carmo

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

10 de Agosto História de Santa Filomena

Grande Taumaturga do Século XIX
Padroeira do Rosário Vivo
Padroeira dos Filhos de Maria


No dia 25 de maio de 1802, os ossos de uma mulher entre 13 e 15 anos foi descoberto no cemitério de Santa Priscila, nas escavações das catacumbas em Roma. Uma inscrição próxima ao túmulo dizia “A paz seja contigo, Filomena”, junto com inscrições de uma âncora, três flechas e uma palma. Próximo aos ossos foi descoberto um vaso de vidro com um depósito de sangue ressequido. Por ser costume dos primeiros mártires deixar símbolos e sinais como estes, foi facilmente determinado que Santa Filomena havia sido uma virgem mártir.
No reinado do Papa Pio VII, quando foram encontradas essas relíquias, o padre Francisco de Lúcia, da cidade de Mugnano dele Cardinale (Itália), desejou levar as relíquias de um santo para sua paróquia e foi à Santa Sé em Roma para solicitá-las.
Quando estava na Capela do Tesouro (onde ficavam as sagradas relíquias), dentre tantas apenas três possuíam nomes: um adulto, uma criança e Santa Filomena. Quando ajoelhou-se diante das relíquias de Santa Filomena, sentiu-se possuído de uma alegria espiritual jamais experimentada. Sentiu também um incontrolável desejo de levar aquelas Sagradas Relíquias para sua igreja em Mugnano.
Terminada essa visita, dirigiu-se ao Sr. Bispo de Potenza e ficou sabendo então que precisaria de uma graça muito especial, ou talvez um milagre. Não havia precedentes de a Santa Sé haver confiado tão preciosos tesouros à guarda de um simples sacerdote. E nesse caso seria praticamente impossível, por se tratar das relíquias de uma virgem mártir cujo nome era conhecido.
Tendo caído gravemente enfermo, padre Francisco recoreu ao auxílio de Santa Filomena, prometendo tomá-la como especial Padroeira e levar suas relíquias para Mugnano, caso obtivesse autorização para tanto. Curado milagrosamente, retornou então à Santa Sé narrando a graça alcançada e obteve o pedido, levando triunfalmente as relíquias para sua paróquia. Assim que lá chegou começaram a acontecer tantos milagres que ia gente de toda a Itália e Europa a pedir e agradecer graças alcançadas.
Sua popularidade logo se espalhou, sendo seus mais memoráveis devotos São João Vianney, Santa Madalena Sofia Barat, São Pedro Eymard, e São Pedro Chanel.
Relicário de Sta. Filomena
Muitos Papas foram devotos de Santa Filomena. Entre eles, Pio IX, que no dia 7 de novembro de 1849 celebrou a Santa Missa no altar onde estão as Santas Relíquias e, no dia 15 de janeiro de 1857, concedeu ofício próprio com Missa. São Pio X, que em peregrinação a Mugnano doou à imagem da Virgem Mártir um riquíssimo anel. Leão XIII, que peregrinou ao Santuário de Mugnano duas vezes, e em 1884 aprovou, consagrou e indulgenciou o cordão de Santa Filomena.
Depois de ser curada milagrosamente, a Venerável Pauline Jaricot insistiu para que o Papa Gregório XVI iniciasse o exame para a canonização de Santa Filomena, que já estava sendo conhecida como grande taumaturga.
Gregório XVI, tendo recebido o parecer favorável da Sagrada Congregação dos Ritos à canonização de Santa Filomena, elevou-a à honra dos altares, instituindo ofício próprio para o culto e a festa, proclamando-a A Grande Taumaturga do Século XIX, Padroeira do Rosário Vivo e Padroeira dos Filhos de Maria.
As relíquias de Santa Filomena ainda são preservadas em Mugnano, na Itália.

A vida de Santa Filomena Santa Filomena

O que sabemos historicamente sobre Santa Filomena, resume-se ao que foi descoberto nas catacumbas de Roma: uma jovem entre 13 e 15 anos, que morreu mártir pela fé.
A revelação de sua vida foi feita de maneira extraordinária, tendo a Santa aparecido de maneira particular a três pessoas. Essa narrativa recebeu o “imprimatur” (autorização) da Congregação do Santo Ofício para divulgação. O relato mais detalhado, aqui reproduzido, foi concedido à Irmã Maria Luísa de Jesus:
Santa Filomena era filha de um rei da Grécia, e sua mãe era também de sangue real; como não lhes vinham filhos, ofereciam sacrifícios e preces constantemente a seus falsos deuses para consegui-los. Providencialmente, o médico do palácio, de nome Públio, era cristão.
Penalizado pela cegueira espiritual de seus soberanos e inspirado pelo Divino Espírito Santo, falou-lhes da nossa Fé, garantindo-lhes que suas orações seriam ouvidas se abandonassem os falsos deuses e abraçassem a Religião Cristã.
Impressionados com o que ouviram, e tocados pela Graça, resolveram receber o Batismo, após o qual lhes nasceu uma linda filhinha no dia 10 de janeiro do ano seguinte. Imadiatamente, chamaram-na de Lumena ou luz, por ter nascido à luz da fé. Na pia batismal deram-lhe o nome de Filomena, isto é, Filha da Luz, da Luz Divina que lhe iluminou a alma por meio desse Augusto Sacramento.
Aos cinco anos de idade recebeu pela primeira vez a Sagrada Comunhão e desde então lhe aumentavam os desejos de íntima união com o Divino Redentor, até que, na idade de 11 anos, a Ele se consagrou por voto de virgindade perpétua.
Contava 13 anos quando seu pai foi ameaçado de uma injusta guerra pelo Imperador Diocleciano, obrigando-o a ir a Roma numa tentativa de paz. Acompanharam-no na viagem a esposa e a filha, que era de ambos inseparável. O Imperador os admitiu imediatamente à sua presença, para impor, sem dúvida, seus cruíes objetivos em relação à soberania da pequena Grécia. Mas ao ver a Princesa, tudo se mudou em sua mente doentia. A beleza da menina-moça o encantou e de pronto concordou, não só com uma paz duradoura, mas com uma sincera amizade complementada com privilégios políticos e econômicos, desde que lhe fosse dada a mão da linda princesinha por esposa. Seus pais sentiram-se aliviados e de imediato concordaram com a interessante proposta imperial.
De regresso à Grécia, em lágrimas, declarou Santa Filomena, que tudo fizera para convencer seus pais a retirarem a aprovação dada a Diocleciano, que seu coração já pertencia a outro Senhor, o único Soberano, o Rei dos Reis, Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem se consagrara por voto de virgindade quando completara 11 anos de idade. E que nada deste mundo, nem mesmo a morte, a impediria de cumprir sua promessa.
Seus pais ficaram arrasados. Amavam-na demasiadamente e sabiam que tal recusa ao Imperador trar-lhes-ia, no mínimo, a morte da sua única e adorada filhinha, dor que certamente não teriam forças para suportar. Então, seu pai, com doçura, procurou concencê-la que seu voto, aos 11 anos, não tinha nenhum valor, porque nessa idade não podia dispor de si. Era um voto nulo.
Fora esta, talvez, a parte mais difícil do seu martírio. Enquanto seu pai esforçava-se por dissuadi-la, sua mãe com o rosto encostado ao seu, banhava-o com abundantes lágrimas… Mas que fazer? Seu coração ansiava por encontrar-se com seu Celeste Esposo e, depois, era também por amor a eles – seus pais – que fazia aquele sacrifício, pois queria recebê-los, um dia, no Céu.
Entretanto, seu pai, vendo esgotados todos os seus argumentos, aplicou o último recurso. Valeu-se de sua autoridade moral e legal. Disse que a forçaria a obedecer-lhe. Mas o bom Jesus não abandona quem a Ele se consagra de verdade. Dera-lhe forças para, sem ferir a susceptibilidade dos pais, permanecer irredutível.
O Imperador considerou a recusa da jovem princesa como um pretexto de deslealdade ao Império e ordenou que a trouxessem a sua presença. Seus pais, antes de levá-la, atiraram-se aos seus pés e suplicaram-lhe que se apiedasse deles e do seu reino. Respondeu-lhes que o único reino pelo qual deveriam lutar era o Reino dos Céus, e que lá os esperaria. Encerrara aqui a primeira batalha do seu martírio.
Chegada à presença do Imperador, este usou a mesma tática do seu pai. Primeiramente, empregou todos os recursos possíveis para convencê-la a ser Imperatriz de Roma. Fez-lhe mil lisonjas e promessas, mas como seu esforço foi inútil, enfureceu-se, e ordenou que a encarcerassem nos Santa Filomenasubterrâneos do Palácio. Todavia, ia visitá-la diariamente na prisão, na esperança de, galanteando-a, conseguir quebrar sua resistência. Durante tais visitas, permitia que a aliviassem das correntes e lhe dessem um pouco de água e pão, Mas sem nada conseguir, retirava-se, cada vez mais enfurecido e ordenando que se lhe aumentassem as torturas.
Impossível era que, uma frágil menina de apenas 13 anos, que vivera sempre cercada do máximo conforto e desvelo no Palácio de seus pais, resistir a tantas torturas, não fora a proteção especial que lhe dispensavam seu Divino Esposo e a Virgem Santíssima, os quais visivelmente encorajavam-na com freqüentes aparições.
Decorridos 37 dias em que se encontrava em tão lastimável estado, a Rainha do Céu lhe apareceu aureolada por uma deslumbrante luz, trazendo desta vez, em seus braços, o Deus-Menino, e disse-lhe que, depois de mais três dias, iria ser retirada daquele cárcere, quando então teria que sofrer cruéis tormentos por amor ao seu Divino Filho. Tal aviso deixou a “Princesinha do Paraíso” apavorada. Mas a Celeste Rainha encorajou-a com as seguintes palavras:
“Minha filha, tu me és mais querida acima de todas, porque trazes o meu nome e o do meu Filho. Tu te chamas Lumena. Meu Filho, teu Esposo, chama-se Luz, Estrela, Sol. E eu me chamo Aurora, Estrela, Luz, Sol. Serei o teu amparo. Agora é o momento transitório da fraqueza e da humilhação humanas; quando chegar, porém, a hora extrema do teu julgamento, da tua decisão ante os horríveis tormentos que te serão impostos, receberás a graça da divina força. Além do teu Anjo da Guarda, terás a teu lado o Arcanjo São Gabriel, cujo nome significa “a Força do Senhor”. Quando eu estava na terra era ele o meu protetor. Mandá-lo-ei agora àquela que é a minha mais querida filha.”
Após tão maravilhosa visita, a Rainha dos Céus desapareceu deixando a jovem prisioneira reanimada, disposta mesmo a sofrer os maiores tormentos por amor ao Divino Filho de Maria que por ela dera a vida no madeiro da Cruz.
Ao enlevo em que ficara pela presença da Mãe de Deus, juntara-se um celeste perfume com o qual a Excelsa Senhora a inebriara e que permaneceu no cárcere enquanto lá esteve prisioneira.
Passados os três dias, cumpriu-se o que a Celeste Rainha anunciara. O Imperador vendo-se irremediavelmente derrotado pela firmeza da princesa, resolveu mandá-la torturar publicamente. O primeiro dos suplícios foi o dos açoites, acompanhado por horrorosas blasfêmias. O corpo da menina ficou reduzido a uma única chaga e, já agonizante, foi a mesma atirada na escura prisão onde deveria exalar os últimos suspiros. Mas quando julgava haver chegado o momento de se apresentar ante seu Celeste Esposo, dois formosos Anjos lhe apareceram, ungiram seu dilacerado corpo com um bálsamo celeste e deixaram-na completamente curada.
Na manhã seguinte, o Imperador, ao tomar conhecimento da assombrosa notícia, ordenou que a levassem à sua presença. Ao vê-la mais encantadora que nunca, desmanchou-se em lisonjas procurando convencê-la de que fora o deus Júpiter que a havia curado por destiná-la a ser Imperatriz de Roma.
Iluminada pelo Divino Espírito Santo, a Princesa Mártir repeliu firmemente o sofisma e respondeu ao tirano que seus deuses coisa alguma poderiam fazer. Eram simples estátuas de matéria inerte, cujos ilusórios trunfos não passavam de frutos da imaginação doentia dos homens que os criaram. Advertiu-o que se despertasse e procurasse ver o único Deus existente, Criador do Universo, dos Anjos e dos homens, o Deus que os cristãos adoram e diante do qual também ele, Imperador, teria de comparecer um dia para prestar contas dos seus atos.
Diocleciano, vendo-se mais uma vez derrotado, louco de raiva por não poder responder aos argumentos sensatos da princesinha cristã face à impotência dos deuses do Império, ordenou que lhe amarrassem uma âncora no pescoço e a lançassem no rio Tibre. Entretanto, o Divino Redentor veio em socorro da sua consagrada, confundindo seus inimigos e convertendo a muitos: no exato momento em que a mesma estava sendo atirada no rio Tibre, dois Anjos apareceram, cortaram a corda que prendia a âncora, e a transportaram para a outra margem, sem que as águas lhe tocassem sequer as vestes.
Esse grandioso milagre foi presenciado por centenas de pessoas, das quais muitas se converteram, inclusive os soldados que a lançaram no Tibre. O Imperador, porém, mais obstinado que Faraó, atribuiu o maravilhoso prodígio a algum poder mágico da menina, declarou-a feiticeira e ordenou que fosse arrastada pelas principais ruas da cidade e depois transpassada por setas. Mortalmente ferida, foi abandonada no cárcere como se já estivesse morta. Mas seu Celeste Esposo fê-la cair num sonoSanta Filomena reparador, despertando-a mais tarde completamente curada e mais formosa que nunca.
O Imperador, no entanto, ao invés de se curvar ante a evidência do indiscutível poder do Deus único e verdadeiro, enfureceu-se ainda mais e ordenou que a flechassem ininterruptamente até ficar comprovadamente morta. Mas, que maravilha! Por mais que se esforçassem os arqueiros, nenhuma seta saiu dos respectivos arcos. Julgou ainda o Imperador, que tal fato se verificara em razão do forte poder mágico de que era possuidora a princesa, o qual só poderia ser vencido pelo fogo. Determinou então que todas as setas fossem colocadas numa fornalha até ficarem totalmente rubras. Mas o Divino Esposo da sua eleita fez com que as setas em brasa se voltassem contra os que as haviam lançado, seis dos quais tiveram morte instantânea.
Esse extraordinário prodígio foi causa de numerosas conversões, passando o povo a reverenciar a fé e a reconhecer o ilimitado poder do Deus dos cristãos que tão bem protegia a sua mártir.
Temendo o Imperador maiores conseqüências, e já bastante confuso, ordenou que a Princesa fosse imediatamente decapitada. Mas ainda desta vez nenhum poder teria o tirano, não fora a vontade do Altíssimo permitir a consumação do martírio, a fim de que a “Princesinha do Céu” – conforme a chamara a Virgem Santíssima – pudesse receber na Glória o prêmio eterno da sua incondicional fidelidade a Cristo Jesus.
Assim, a Virgem Mártir doou sua vida por amor ao divino Filho da Virgem Santíssima, transformando seu precioso sangue virginal em semente fecunda que haveria de gerar milhões de almas para o eterno serviço de Deus. Colheu a palma do martírio numa sexta-feira, às três horas da tarde, sendo 10 de agosto o dia.
Vitral de Santa Filomena em La Salette
Vitral de Santa Filomena
no Santuário de La Salette na França
No alto, martírio da Santa.No centro, Santa Filomena sobre La Salette.Abaixo: O Santo Cura d’Ars, S.João Maria Vianney, grande devoto de Santa Filomena
(site Sagrados Corazones Traspasados
de Jesús y María –
SCTJM)

A poderosa intercessão de Santa Filomena

Irmã Maria Luísa teve a ventura de receber várias vezes a visita de Santa Filomena. Contemplou certa vez, em belíssima visão, um trono de nuvens muito alvas no Céu, no qual estava sentada a Santíssima Virgem Maria, com vestes de ouro que resplandeciam como os raios do Sol, e com um celeste manto recamado de vivas estrelas que giravam por si mesmas. Ornava-lhe a fronte uma coroa de ouro cravejada de pedras preciosas. Do semblante irradiava tal beleza, que de pronto se podia identificá-la como sendo a Mãe de Deus. Viu, a seguir, aproximar-se da Excelsa Rainha do Céu, como dama de honra, Santa Filomena, que, retirando da sua cabeça uma coroa de ouro, ajoelhou-se e suplicou: “Senhora do Céu e da terra, venho pedir-Vos graças”. E apresentou-lhe algumas dezenas para diversas pessoas.
Estendendo-lhe as mãos, sorrindo, a Rainha dos Anjos e dos Santos lhe respondeu:
“A Filomena, nada se nega; sejam-lhe concedidas todas as graças.”
A Irmã viu, também, ao lado da Celeste Rainha, o Arcanjo São Gabriel, que com uma pena de ouro e em letras igualmente de ouro, escreveu: “Sejam concedidas as súplicas apresentadas por Filomena”.
A seguir, Santa Filomena, sob o encanto do sorriso maternal da Rainha do Céu, ergueu-se com reverência e, dirigindo-se à Irmã, disse-lhe: “Vês, peço as graças a Maria e por Ela me são concedidas”.
Padre Vianney, o Santo Cura d’Ars, dizia de Santa Filomena: “É ela a ‘Princesa do Paraíso’, a quem nada é negado. É grande seu poder junto dos Tronos de Jesus e Maria. Tenham confiança nela”.